CFO proíbe PMMA para fins estéticos; entenda os riscos e as alternativas
Resolução impede cirurgiões-dentistas de usarem PMMA injetável em preenchimentos exclusivamente estéticos; produto permanente continua restrito a indicações reparadoras autorizadas pela Anvisa.
O Conselho Federal de Odontologia (CFO) proibiu cirurgiões-dentistas de utilizarem o polimetilmetacrilato, conhecido como PMMA, como preenchedor injetável para fins exclusivamente estéticos. A Resolução CFO nº 297/2026 entrou em vigor com a publicação no Diário Oficial da União em .
- A proibição vale para preenchimentos exclusivamente estéticos realizados por cirurgiões-dentistas na região orofacial e em estruturas anexas.
- O PMMA é permanente, não é absorvido pelo organismo e está associado a granulomas, infecções, necrose, embolias, cegueira, hipercalcemia e insuficiência renal.
- Para estética, alternativas como ácido hialurônico, hidroxiapatita de cálcio e ácido poli-L-láctico podem ser avaliadas, mas nenhuma é isenta de risco ou indicada para todos os casos.
O que o Conselho Federal de Odontologia proibiu?
A Resolução CFO nº 297/2026 proíbe o uso do PMMA como substância preenchedora injetável para finalidade exclusivamente estética por cirurgiões-dentistas. A regra alcança procedimentos sem indicação funcional, reparadora ou reconstrutora comprovada e amparada pelo registro sanitário do produto.
A norma não representa o banimento de todo produto fabricado com PMMA. Seu objeto é o preenchimento injetável estético na Odontologia. Resinas acrílicas utilizadas na fabricação de próteses dentárias e outros usos não injetáveis do polímero não são o alvo da resolução.
| Situação | Regra para cirurgiões-dentistas |
|---|---|
| Aumento de lábios, contorno ou volume com finalidade somente estética | Proibido com PMMA |
| Aplicação em quantidade ou técnica diferente da aprovada no registro do produto | Proibida |
| Tratamento reparador expressamente autorizado pela Anvisa | Pode ser admitido, desde que cumpridos todos os requisitos |
| Uso sem capacitação específica comprovada | Proibido |
| Uso de resina de PMMA em prótese dentária | Não é objeto da resolução sobre preenchedor injetável |
Quando o PMMA ainda pode ser usado na Odontologia?
O CFO manteve a possibilidade de uso apenas nas hipóteses reparadoras expressamente autorizadas pela Anvisa e previstas no registro sanitário do produto. A resolução cita a correção volumétrica facial ou corporal decorrente de sequelas de doenças e a correção de lipodistrofia associada ao uso de antirretrovirais em pessoas com HIV/Aids.
Nesses casos excepcionais, o cirurgião-dentista precisa comprovar capacitação técnica específica, seguir exatamente a quantidade, a técnica, a área anatômica e a finalidade autorizadas, explicar riscos e alternativas, obter termo de consentimento e entregar ao paciente a etiqueta de rastreabilidade do produto.
O que é PMMA?
PMMA é a sigla de polimetilmetacrilato, um polímero sintético da família dos acrilatos. Em aplicações industriais, é conhecido como um tipo de acrílico transparente. Na área da saúde, o mesmo polímero pode aparecer em produtos diferentes, como resinas odontológicas, lentes intraoculares, cimentos ósseos e materiais implantáveis.
Como preenchedor injetável, o produto é formado por pequenas microesferas de PMMA suspensas em um veículo semelhante a gel. Depois da aplicação, o gel é absorvido, mas as partículas permanecem no tecido e estimulam a formação de tecido ao redor delas. Por esse motivo, o efeito é considerado permanente.
Por que o PMMA foi proibido para estética?
O principal problema é justamente sua permanência. O organismo não dissolve nem absorve as microesferas, e não existe uma enzima capaz de retirar seletivamente o material depois da aplicação. Quando surge uma complicação, a remoção pode exigir cirurgia, retirar também tecido saudável e ainda não conseguir eliminar todo o produto.
O CFO também considerou a classificação sanitária do PMMA como dispositivo médico de Classe de Risco IV, a categoria de risco máximo. A resolução registra que havia apenas dois produtos à base de PMMA regularmente registrados no Brasil e que o uso indiscriminado fora das indicações aprovadas representa problema de saúde pública.
Quais são os riscos do PMMA?
| Tipo de complicação | O que pode acontecer |
|---|---|
| Inflamação tardia | Dor, inchaço, endurecimento e vermelhidão meses ou anos depois |
| Granulomas | Nódulos formados pela reação persistente do organismo ao material |
| Infecção | Infecções recorrentes ou persistentes ao redor do produto permanente |
| Necrose | Morte do tecido por compressão ou obstrução da circulação |
| Embolia e oclusão vascular | Entrada ou compressão do material em vasos sanguíneos, com risco para pele, pulmão, cérebro e olhos |
| Perda da visão | Comprometimento temporário ou permanente por obstrução de vasos que irrigam os olhos |
| Hipercalcemia | Aumento do cálcio no sangue relacionado a inflamação granulomatosa crônica |
| Lesão renal | Cálculos, insuficiência renal e, nos casos mais graves, necessidade de hemodiálise |
| Deformidade permanente | Assimetria, migração, retração e perda de tecido após complicações ou tentativas de remoção |
As complicações podem aparecer imediatamente ou somente anos depois. A experiência do profissional reduz erros técnicos, mas não elimina os riscos ligados ao caráter permanente do material. Volumes elevados e aplicações em áreas não autorizadas aumentam ainda mais a possibilidade de dano.
PMMA é plástico?
Sim. Tecnicamente, o PMMA é um polímero plástico. Isso não significa que todos os objetos ou produtos de PMMA tenham o mesmo risco. Uma prótese fabricada e usada externamente aos tecidos é diferente de milhões de microesferas injetadas em uma região com vasos, nervos e músculos.
O problema regulado pelo CFO não é a existência do material, mas sua aplicação invasiva como preenchedor permanente para criar volume puramente estético.
O PMMA foi proibido para todos os profissionais?
A resolução do CFO disciplina a atuação dos cirurgiões-dentistas. Separadamente, o Conselho Federal de Medicina publicou a Resolução CFM nº 2.461/2026, que proibiu médicos de usarem PMMA como preenchedor estético ou reparador, mantendo como exceção o tratamento de lipodistrofia associada ao HIV/Aids no SUS e conforme os protocolos do Ministério da Saúde.
A Anvisa, por sua vez, não retirou todos os produtos do mercado. A agência mantém registros para indicações reparadoras específicas e determina que nenhum preenchedor seja utilizado fora da finalidade, da área anatômica, da técnica e do volume aprovados.
O que pode ser usado no lugar do PMMA?
Não existe um substituto único para todos os objetivos. A escolha depende da região, do tipo de perda de volume, da qualidade da pele, das doenças do paciente, de procedimentos anteriores e da autorização profissional para atuar naquele local.
| Opção | Característica principal | Limitações e riscos |
|---|---|---|
| Ácido hialurônico | Preenchedor temporário e biodegradável; em determinadas complicações pode ser degradado com hialuronidase | Pode causar nódulos, infecção, necrose, oclusão vascular, perda da visão e outras complicações |
| Hidroxiapatita de cálcio | Preenchedor e bioestimulador com efeito não permanente | Não possui uma enzima específica para dissolução e exige indicação precisa |
| Ácido poli-L-láctico (PLLA) | Bioestimulador que promove produção gradual de colágeno | Não produz o mesmo resultado imediato de um gel e pode causar nódulos se utilizado incorretamente |
| Enxerto de gordura do próprio paciente | Utiliza tecido autólogo e pode corrigir perdas maiores de volume | É procedimento cirúrgico, possui absorção variável e riscos anestésicos e operatórios |
| Tratamentos sem preenchimento | Ultrassom, radiofrequência, lasers ou cirurgia podem ser considerados conforme o problema | Não substituem volume em todas as situações e também possuem contraindicações |
O ácido hialurônico costuma ser considerado quando o objetivo é um preenchimento temporário, porque o organismo o degrada com o tempo e existe a possibilidade de usar hialuronidase em determinadas intercorrências. Isso não o transforma em produto sem risco: injeções acidentais em vasos também podem provocar necrose, cegueira ou acidente vascular cerebral.
Ácido hialurônico é totalmente seguro?
Não. Todos os preenchedores injetáveis são procedimentos invasivos. A Anvisa alerta que ácido hialurônico, hidroxiapatita de cálcio, PLLA e PMMA podem causar eventos graves quando aplicados fora das indicações aprovadas, em áreas inadequadas, em excesso ou por pessoas sem qualificação.
A vantagem relativa do ácido hialurônico é ser temporário e poder ser degradado com hialuronidase em diversas situações. Mesmo assim, a reversão não é garantia de recuperação quando existe obstrução arterial grave, perda visual ou necrose já estabelecida.
Como escolher um procedimento mais seguro?
- Confirme se o profissional possui inscrição ativa no conselho da profissão.
- Verifique se o procedimento está dentro da área legal de atuação e da formação do profissional.
- Exija o nome comercial, fabricante, número de registro na Anvisa, lote e validade.
- Não aceite produto fracionado sem embalagem, preparado em farmácia de manipulação ou comprado pelo próprio paciente.
- Peça a etiqueta de rastreabilidade e guarde o documento.
- Questione se o uso proposto consta na instrução oficial do produto.
- Desconfie de grandes volumes, promessa de resultado definitivo barato e aplicação em ambientes sem estrutura para emergências.
- Leia o termo de consentimento e pergunte como o serviço responderá a uma oclusão vascular ou reação grave.
Quem já tem PMMA precisa remover?
A nova resolução não significa que todas as pessoas com PMMA devam tentar retirá-lo. Uma cirurgia preventiva em uma região sem sintomas pode criar lesões que não existiam e, muitas vezes, a remoção completa é impossível.
Quem já recebeu o produto deve guardar informações sobre marca, lote, volume, datas e locais de aplicação e procurar avaliação profissional caso apresente dor, vermelhidão, calor, inchaço, endurecimento, nódulos, secreção, mudança na cor da pele ou alteração do formato da região.
Perda súbita de visão, dor intensa, pele muito pálida ou arroxeada, falta de ar, fraqueza de um lado do corpo ou dificuldade para falar exigem atendimento de emergência. Sintomas persistentes, mesmo anos após a aplicação, também devem ser investigados.
O que acontece com o dentista que descumprir a regra?
O uso em desacordo com a resolução configura infração ético-disciplinar. O Conselho Regional de Odontologia poderá fiscalizar, abrir processo e aplicar as penalidades previstas na legislação profissional, com direito ao contraditório e à defesa.
A responsabilização no conselho não impede outras consequências. Dependendo do caso, o profissional também poderá responder nas esferas civil, penal e administrativa por danos, exercício irregular, falsificação de documentos, falta de consentimento ou uso de produto fora do registro sanitário.
Linha do tempo da restrição ao PMMA
- 2018: Anvisa esclarece que o PMMA é produto de Classe de Risco IV e deve ser usado apenas nas indicações registradas.
- 2024: Anvisa lança página de orientação sobre estética e reforça que PMMA não é indicado para aumento de volume meramente estético.
- 10 de julho de 2025: reavaliação da Anvisa mantém somente as indicações reparadoras já aprovadas.
- 12 de fevereiro de 2026: Anvisa publica informe sobre riscos de preenchedores usados fora das instruções.
- 2 de junho de 2026: entra em vigor a proibição do CFM para médicos, com exceção restrita ligada ao HIV/Aids no SUS.
- 21 de julho de 2026: CFO aprova a Resolução nº 297.
- 24 de julho de 2026: norma odontológica é publicada no Diário Oficial e passa a vigorar.
Perguntas frequentes
O CFO proibiu todo uso de PMMA?
Não. A resolução proíbe o PMMA injetável para fins exclusivamente estéticos por cirurgiões-dentistas. O uso reparador somente pode ocorrer nas indicações aprovadas pela Anvisa e com todos os requisitos profissionais e documentais.
Dentista pode aplicar PMMA nos lábios?
Não para aumento ou modelagem exclusivamente estética. Essa aplicação passou a ser expressamente proibida pela Resolução CFO nº 297/2026.
PMMA é absorvido pelo organismo?
Não. As microesferas permanecem nos tecidos, motivo pelo qual o preenchimento é considerado permanente.
PMMA pode ser dissolvido?
Não existe uma enzima que dissolva seletivamente o PMMA. Quando necessária, a retirada costuma ser cirúrgica, pode ser incompleta e pode exigir remoção de tecido saudável.
Qual é o maior risco do PMMA?
Não há um único risco. Entre os mais graves estão necrose, embolia, perda da visão, infecção crônica, granulomas, hipercalcemia, insuficiência renal e deformidades permanentes.
Qual produto substitui o PMMA?
Não existe substituto universal. Ácido hialurônico, hidroxiapatita de cálcio, PLLA, enxerto de gordura e tratamentos sem preenchimento podem ser avaliados conforme a indicação.
Ácido hialurônico é mais seguro?
Em muitos procedimentos ele é preferido por ser temporário e permitir degradação com hialuronidase em determinadas situações. Entretanto, continua sendo um produto injetável com risco de necrose, infecção, oclusão vascular e perda visual.
A proibição atinge próteses dentárias de acrílico?
Não. O texto trata do PMMA como preenchedor injetável estético. O uso do polímero em resinas e próteses dentárias não é o objeto da resolução.
Quem já possui PMMA deve retirar?
Não automaticamente. A retirada preventiva pode causar danos e deve ser avaliada individualmente. Pessoas com sintomas precisam procurar atendimento especializado.
Como saber se o produto tem registro?
O paciente pode pedir o número de registro e consultar o banco de produtos da Anvisa. Também deve receber a etiqueta de rastreabilidade com marca, lote e fabricante.
Bioplastia é a mesma coisa que PMMA?
“Bioplastia” é um nome comercial usado para técnicas de preenchimento. Muitas vezes está associado ao PMMA, mas o paciente deve perguntar qual substância será injetada, porque o nome do procedimento não identifica obrigatoriamente o produto.
Fontes consultadas
- Conselho Federal de Odontologia — Resolução CFO nº 297/2026
- Anvisa — Orientações ao público sobre PMMA
- Anvisa — Reavaliação mantém somente as indicações já aprovadas
- Anvisa — Riscos do uso de preenchedores fora das indicações
- Anvisa — Informe de Segurança GGMON nº 01/2026
- Anvisa — Preenchedores intradérmicos não podem ser manipulados em farmácias
- Conselho Federal de Medicina — Resolução CFM nº 2.461/2026
- Ministério da Saúde — Tratamento reparador da lipodistrofia e lipoatrofia facial
- FDA — Riscos e orientações sobre preenchedores dérmicos
- FDA — Reversão de preenchedores de ácido hialurônico com hialuronidase
- Wikimedia Commons — Estrutura química do PMMA em domínio público
- Wikimedia Commons — Estrutura química do ácido hialurônico em domínio público
Fonte original: Conselho Federal de Odontologia — Resolução CFO nº 297/2026.
Nota editorial: esta matéria diferencia a proibição profissional estabelecida pelo CFO do registro sanitário mantido pela Anvisa para indicações reparadoras específicas. O conteúdo é informativo e não substitui avaliação clínica individual. Alternativas estéticas também possuem riscos e devem ser utilizadas somente dentro da indicação aprovada e por profissional legalmente habilitado.
Nota sobre as imagens: as fórmulas químicas do PMMA e do ácido hialurônico estão disponíveis no Wikimedia Commons em domínio público. Elas são ilustrativas e não representam marcas comerciais de preenchedores.